DIREITO DE APRENDER
Palavras-chave:
Autopoiese, Direito de aprender, AprendizagemResumo
Pode-se aceitar que viver é aprender. Dizíamos isso antes por conta da sabedoria das
pessoas que sabiam extrair da vida lições constantes e crescentes de aprendizagem. Hoje
dizemos isso por algumas outras razões a mais, em particular por conta de certas discussões
com base biológica. Entre nós, a mais conhecida é a de Maturana e Varela (1994. Maturana,
1998, 2001. Varela, 1997) e que nos oferece a perspectiva iluminada e inovadora do ser vivo
como entidade dotada de dinâmica autopoiética, ou seja, de dentro para fora. O conceito de
autopoiese - autoformação, ou autoconstituição - sugere que o ser vivo é autogerativo e auto-
regenerativo, no sentido de que possui dinâmica autônoma que o faz construir e
constantemente reconstruir sua trajetória de vida. Pode ser motivado de fora, pressionado e até
mesmo eliminado de fora (morte violenta imposta), mas a dialética da vida funda-se em
dinâmica complexa não linear de dentro para fora: tudo que entra na mente viva, entra por
dentro, como é o caso da aprendizagem adequada. Esta idéia acena para a vocação à
autonomia de todo ser vivo, que se confronta com a realidade do ponto de vista do observador
e nela age de maneira reconstrutiva, na condição de sujeito interpretativo. Reencontra-se, por
outra via, o mesmo patrimônio hermenêutico, que considera a mente humana como iniciativa
construtiva perante a realidade: não é esta que se impõe de fora, é aquela que capta a esta de
maneira ativa, interferindo na realidade. Vida parece ser dinâmica histórica irreversível, começa
modesta (ao nascer, os seres vivos muitas vezes são extremamente frágeis, sobretudo em
formas ditas superiores de vida, como nos mamíferos e na espécie humana), desenvolve-se por
impulso próprio, também porque processa seu alimento para torná-lo energia própria (o
alimento ingerido precisa ser “digerido”, ou seja, reconstruído), ao mesmo tempo que cresce,
amadurece, também se consome (sujeito à lei da entropia) e por fim morre, aprende até ao
último instante no sentido de que mantém-se o mesmo por inovar-se e inova-se por manter-se o
mesmo. Sua identidade é elaborada ao longo da vida, muda todo o dia e é assim que
permanece idêntica, em sua subjetividade é irrepetível e insondável, oferecendo identidade
plástica, flexível, ou seja, identidade que sabe aprender. Nunca é fixa, acabada, intocável. Vida
vem e vai. É permanente por ser passageira. É passageira por ser permanente.
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